Para que haja vínculo de emprego, é preciso que a relação entre empregador e empregado vise à prestação continuada de um serviço, mediante o pagamento de salário. A característica essencial dessa relação é a subordinação jurídica, segundo a qual o empregado está sujeito às ordens do empregador, nos limites previstos no contrato e na lei.

Mesmo que o contrato não esteja registrado fisicamente e não haja assinatura na carteira, é possível o reconhecimento de vínculo.

Um exemplo foi o caso de uma distribuidora de panfletos, que trabalhava por diária, sem carteira assinada, e procurou a Justiça do Trabalho em busca de seus direitos.

Segundo a reclamante, ela prestou serviços de 4/12/18 a 22/2/19 a uma empresa, entregando panfletos de propaganda de exame toxicológico para renovação de CNH. Disse que trabalhava de segunda a sexta, só interrompendo o serviço no período das festas do fim do ano.

Segundo testemunha ouvida no processo, além de entregar panfletos, a trabalhadora também preenchia fichas de cadastro dos interessados em fazer o exame.

O juízo da 6ª Vara do Trabalho de Vitória reconheceu que houve subordinação à empresa, prestações de serviços habituais e jornada pré-fixada, comprovando a subordinação jurídica.

A empresa recorreu da decisão, alegando que o serviço prestado era eventual, sem jornada estipulada, pessoalidade ou qualquer outro elemento que caracterizasse vínculo empregatício.

Ao julgar o recurso ordinário, a 1ª Turma do TRT-ES manteve a decisão do Primeiro Grau, quanto ao reconhecimento do vínculo.

O relator do acórdão, desembargador Claudio Armando Couce de Menezes, citou, em seu relatório, o princípio da primazia da realidade, segundo o qual, em casos de discordância entre o que ocorre na prática e o que está registrado em documentos e acordos, deve-se dar preferência ao que ocorre no mundo dos fatos.

A Justiça do Trabalho deve estar atenta à precarização das relações de trabalho (…). Esse caso é um triste retrato desse fenômeno, uma vez que reclamante trabalhava sem carteira assinada, como panfleteira, (…), recebendo só pelos dias efetivamente trabalhados uma irrisória contraprestação, ressaltou o relator.

A empresa foi obrigada a assinar a carteira da trabalhadora e pagar as verbas rescisórias.

A reclamante também pediu indenização por danos morais, alegando que trabalhava em pé, na calçada, exposta ao sol, sem água e acesso ao banheiro e com cobranças excessivas, caracterizadoras de terror psicológico. O pedido, negado no Primeiro Grau, foi reconhecido pela 1ª Turma, que condenou a empresa à reparação pelos danos.?

Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região