Uma História de Natal

 

 

 

Indaiatuba, 14 de janeiro de 06

(sábado)

 

====è 13h51min

 

Uma História de Natal.

 

Carlos é advogado. E seus pais também o foram. Com a morte de seu pai, sua mãe e ele tiveram muito trabalho em organizar a casa, pois o velho sempre primou em organizar (mesmo que fosse de seu jeito) os processos (cada vez de uma forma) em que atuaram como advogados.

Logo em seguida, Carlos perde sua mãe. Ou seja, duas mortes em pouco tempo, do pai e da mãe. Ambas abalaram em muito seus ânimos e quase o fizeram desistir de tudo. Faltou pouco para fazer besteira. Viu-se perdido com os processos e, em 48 anos, pela primeira vez desesperou-se.

– O que fazer meu Deus?! Os clientes me solicitam informações e eu sequer sei onde estão alguns dos processos. Meu pai, totalmente às avessas a computadores, utiliza (ou melhor, utilizou até hoje a Olivetti elétrica de muitos anos passados {pasmem inteiraça}) e, não abriu mão de nada por ela. Arquivo?!!! Nem pensar em critérios, pois às vezes arquivava por ordem alfabética de clientes e, em outras por ordem de processo. Ah! Fora aquelas ocasiões em que insistia  em arquivar os processos por “ordem especial”, essa sim, ninguém nunca decifrou seu  mistério. Um perfeito Triângulo das Bermudas. O máximo que sua mãe e ele conseguiram foi decifrar os que se encontravam em ordem alfabética e, parcialmente os que estavam por ordem numérica; mas, como descobrir aqueles que estavam grafados em papel de pão? Ah! Papai. É claro que eu amei muito você, mas, por favor, precisava ser assim tão teimoso? Ah! E mão de vaca também?  Credo. Que canseira meu velho.

 

Dois anos se passaram após a morte dos pais e Carlos sentia-se a cada dia mais impotente. Os clientes pediam substabelecimento e ele já havia devolvido à imobiliária a sala que durante 30 anos fora o escritório de seus pais e, posteriormente, dele.

O que restou a ele, senão a casa onde moravam no Jardim das Flores?

– Bom – raciocinava ele. Tenho 50 anos e com certeza não fiz outra coisa na vida senão trabalhar como advogado. Talvez eu não soubesse fazer outra coisa na vida. Apenas e tão somente advogar e advogar e advogar. Não casei, não tenho filhos nem descendentes. Não tenho ninguém, além de meus pais (ou melhor, tinha) sou eu e apenas eu e mais ninguém.

Uma lágrima molhou seus olhos.

– Para ser exato, mal sei o que fazer – continuou. A casa onde morei por 50 anos é o que me resta e o único bem que me deixaram meus pais. É muito grande para mim apenas. Vou ver se consigo vendê-la e trocá-la por outra menor, mais perto do Centro, quem sabe não terei tantas lembranças assim deles. Ademais, preciso respirar um pouco, sinto-me sufocado lá. Eu deveria ter-me casado há tempos quando tive oportunidade, pois hoje, com 50 anos e cheio de “manias” quem vai me querer? Pensando bem, mesmo financeiramente eu não me sinto seguro. Com os substabelecimentos restam-me poucos clientes e sabe o que mais? Não quero mais advogar… não quero mais coisa nenhuma estou farto de tudo. Nem sei mais rezar (minha mãe me dizia que saber rezar consola). Ah! Meu Deus, se eu ao menos soubesse rezar. É época de Natal e eu aqui sozinho (sentindo pena de mim)… sem ninguém. Acho que vou ao cinema e depois, quem sabe eu consigo encontrar um restaurante onde possa ver gente… quem sabe se eu conhecer novas pessoas, no Natal terei amigos pelo menos para mandar um cartão (nunca me preocupei com isso)… quem sabe…

 

Mas o tempo foi passando e ele não conseguiu encontrar filme algum que lhe chamasse a atenção e também não foi a nenhum restaurante pedindo a comida por telefone.

 

Adormeceu e acordou horas depois com a campanhia tocando. Assustou-se ao olhar no relógio – duas horas da manhã –  quem seria aquelas horas?!

Arriscou-se a olhar para fora através da veneziana fechada da janela da sala.

Quer me parecer que tem um homenzinho lá de fronte ao portão. Será?

Novamente a campainha toca.

Um suor frio escorre-lhe pela espinha. Quem será?

Seus olhos procuram no escuro o telefone:- Qualquer coisa… ligo para a Polícia.

Com coragem abre a janela e grita:

 

– Pois não. Quem é?

– Dr. Carlos o advogado?

– Sim! O que deseja?

– Dr. Desculpe-me o horário, mas estamos precisando urgente do senhor.

– Quem está precisando?

– Todos nós. E temos urgência.

Por alguns segundos Carlos pensa e resolve abrir a porta e atender o rapaz lá fora.

Era realmente um homem de pouca estatura, com roupa e chapéu (nessa noite tão quente).

– Pois não senhor disse-lhe Carlos meio que desconfiado procurando vislumbrar a seu redor para perceber se existia mais alguém de “tocaia”.

– Acalme-se ordenou com muita energia o estranho como que a adivinhar seus pensamentos. Está tudo bem, calmo e tranqüilo senhor. Não se afobe, pois apenas nós dois estamos aqui. O senhor e eu.

– Sei… Tentou balbuciar o advogado…

– Precisamos conversar Dr., pois estamos com urgência de seus préstimos.

– De que se trata para vir aqui às tantas da madrugada? Talvez não pudéssemos conversar outra hora? Que tal ligar-me e marcaremos uma nova reunião? – Carlos faliu sem muita convicção.

– Não –  respondeu o outro rispidamente. Tem de ser agora pois temos urgência de seus préstimos.

– Espere um pouco, você não pode simplesmente chegar assim de improviso, de madrugada e exigir minha atenção sem ao menos se apresentar. Quem você pensa que é? Ou me responde às perguntas ou chamo a Polícia.

– Muito bem, acho que você tem razão. Desculpe-me, meu nome é Praxedes e preciso, ou melhor, precisamos urgente de sua ajuda.

– Quem é precisamos? Quem “precisamos” de minha ajuda?

– Nós Dr.. Todos nós. E é urgente.

– Vamos começar de novo Sr. Praxedes. Acho melhor sentarmos aqui no meu terraço e acender a luz, para poder lhe ajudar temos de nos entender primeiro não?

– Pode ser Sr.. Como quiser.

– Então entre, por favor, e sente-se.

Os dois homens se dirigem ao terraço e sentam-se.

– Pois não senhor Praxedes. Vamos ao que nos une.

– Pois bem Dr. Carlos. O princípio de tudo é o seguinte. Nós precisamos do senhor, mas creia-me é difícil de acreditar na história.

– Tente! Carlos parece ter-se interessado pela história do homenzinho mas procurava manter-se incólume.

– Senhor Carlos. O trabalho que temos para o senhor é duro, difícil, mas gratificante e principalmente envolve muita gente a trabalho, muita “dor de cabeça” durante o ano todo e acredite-me milhões de pessoas estarão totalmente dependentes de seu trabalho.

– Sei. Acredito nisso, mas precisamos ser objetivo. De que se trata?!

– Estou autorizado apenas a dizer ao senhor que é um trabalho grande e gratificante. Não tem nada a ver com Direito, mas o senhor é a pessoa talhada para ele.

Carlos parecia cada vez mais interessado na história do homenzinho, porém, sua preocupação era não dar demonstração disso (pelo menos isso aprendi com o velho). Sim, mas se eu sou advogado e se o trabalho não tem nada a ver com Direito, lamento dizer que não sei como vou poder ajuda-lo senhor Praxedes.

– Lamento não poder lhe dizer mais senhor Carlos. É tudo o que estou autorizado a dizer, mas se aceitar e tenho certeza de que vai aceitar pela vultuosidade da tarefa, eu entrarei em contato com o “chefe” e ele poderá lhe dar mais detalhes.

– Como pode ter tanta certeza de que vou aceitar ô meu?

– Porque o principal de tudo isso é que o senhor vai se dedicar a um trabalho com crianças principalmente.

Essas palavras parece que degelaram um pouco o incrédulo Carlos.

Crianças. Crianças é a nova vida do mundo em que vivemos é a própria vida pulsando no Planeta Terra. Talvez até envolva crianças com fome, necessitadas, doentes. O que pode acontecer se eu quiser apenas saber do que se trata?

– Pois bem senhor Praxedes. Coloque na linha o “chefe”.

– Um momento senhor. Meu celular é muito antigo, sabe como é as finanças estão meio “a perigo” nesses tempos.

– Sei…

O homem minúsculo tenta discar um número duas, três vezes e fala nervosamente:

– Desculpe-me, mas está sem serviço. Vamos esperar um pouco?

Carlos não respondeu e passou unicamente a se divertir em silêncio com o nervosismo do outro. Pela primeira vez desde o início da conversa o rapaz estranho e baixinho estava nervoso e Carlos, ao contrário mantinha-se tranqüilo. Ora! Curiosidade sempre foi para ele um instinto não controlado e não controlável. Recorda-se que muitas vezes deu-se mal com isso. Mas hoje, nada mais importa. Ele bem sabia que precisava de novas motivações ou com certeza iria enlouquecer.

Finalmente o tal Praxedes consegue a ligação:

– Oi quem fala aí? Ora! Eu o Praxedes e tenho muita pressa porque estou com o “cara aqui”. E ele está com pressa de falar com o “chefe”. Vamos complete logo essa ligação seu preguiçoso.

Carlos se diverte muito com o jeito do “baixinho”.

– Finalmente. Senhor, por favor atenda ao “chefe”.

Carlos pega o celular e pergunta:

– Quem é?

– Noel diz uma voz lá no fundo do aparelho.

– Quem? Senhor Noel?!

– Exato. E o senhor é o advogado Carlos?!

– Correto. Escuta seu Noel. Seu ajudante está aqui me propondo um trabalho e não quer entrar em detalhes sobre o assunto. Por acaso acha que eu tenho tempo a perder?

O outro que estava no oposto da linha telefônica começa a rir e diz logo a seguir:

– Senhor Carlos. Com todo o respeito eu sei que o que o senhor mais tem atualmente é tempo ocioso. Desculpe-me a sinceridade, mas sei de toda a sua vida e quer me parecer que está quase sem clientes e sem motivação há muito tempo. Acertei?

Carlos sente-se ruborizar-se repentinamente. Tenta esboçar uma reação, porém não faz nada, Apenas diz rispidamente:

– Continue senhor Noel.

– Pois bem! Tenho uma porção de presentes aqui que devem ser distribuídos e preciso de ajuda, pois estou muito velho. Como o senhor não tem com quem passar o Natal pensei que talvez pudesse me ajudar e juntos, cumpriríamos minha meta de distribuição.

– Como assim?

– Senhor Carlos sei que está curioso, mas infelizmente não tenho muita coisa mais a falar. Trata-se de uma ajuda para distribuir os presentes que eu tenho aqui para as crianças e preciso urgente do senhor uma vez que estou velho e sem agilidade. Entendeu agora?

– Entendi. Mas não entendi muito bem.

– Ora senhor Carlos. O senhor é advogado e sempre teve muita objetividade em suas petições. É o seguinte:- eu tenho muitos presentes para distribuir para as crianças, mas como estou muito velho e cansado não conseguirei dar cumprimento ao meu mister sem a sua ajuda. Como o senhor não tem família, portanto não tem com quem passar o Natal e, nesse caso, eu estou convidando o senhor para me ajudar na distribuição dos presentes para as crianças e, em contra-partida passaremos o Natal juntos. Entendeu?

– Mas …

– Senhor Carlos, o tempo urge. Aceita ou não?

Um silêncio fez-se presente do outro lado.

Carlos respondeu a seguir:

– Senhor Noel eu posso lhe ajudar, mas não precisa ser assim tão grosseiro comigo. Eu sou um homem só. Sem ninguém para me fazer companhia e do jeito como falou comigo magoou-me.

– Sem a intenção meu amigo. Devo-lhe desculpas, mas o tempo urge e você faz muitas perguntas. É bem simples o que estou lhe pedindo. Basta me responder sim ou não!

Novo silêncio atinge a ligação. Novamente Carlos apenas respira ao ouvido do senhor Noel.

Depois de algum tempo em silêncio, o baixinho Praxedes lhe dirige a palavra:

– Senhor Carlos. A ligação pode cair e como o meu celular é antigo, o custo é muito maior.

Carlos olha para ele pensativo durante mais de dez minutos.

Depois repõe ao ouvido o “tijolão” e diz:

– Senhor Noel. Ainda está aí?

– Sim. Um tanto sonolento pela sua demora, mas ainda estou aqui.

– O senhor vai mandar alguém me buscar?

A voz do outro lado do telefone pareceu ter um instante de alívio entes de responder:

– Obrigado senhor Carlos. O Praxedes lhe dará uma carona. Aguardo-o com urgência.

 

Durante o percurso Carlos apesar de apreensivo adormece. Acorda com o sol em seu rosto e deitado em uma rede localizada em varanda de vista linda para um jardim. Carlos prestou atenção nas flores que desfilavam diante de seus olhos, uma mais linda que a outra. Uma cascata de água límpida e resplandecente coloca-se orgulhosa acima desse jardim e corre rápida para o gramado verde, formando um pequeno e cristalino córrego. Seus olhos absorvem a simplicidade e a beleza do jardim à sua frente. Carlos suspira inebriado.

– Nunca pensei que existisse uma casa com um jardim tão lindo. Quanta Paz!.

– Bom dia senhor! – um rapaz baixo com barba comprida e cabelos longos o saúda, gesto esse a que Carlos responde prontamente.

– O senhor Noel vai recebê-lo na sala de jantar para que tomem juntos, o café da manhã.

– Obrigado amigo.

Na verdade Carlos estava começando a se arrepender dessa história toda. Não sabia o que o esperava na realidade e essa insegurança preocupava-o.

Seguiu preguiçosamente o rapaz até a sala de jantar. Simples ela era, porém muito aconchegante. Pequena em medidas, carente de luxo, completamente diferente do jardim mencionado.

Lá no centro existia uma mesa pequena para quatro lugares e um homem muito velho, magro e abatido, de barbas cerradas e alvas o aguardava com um sorriso.

– Como vai meu amigo Carlos. É um prazer enorme recebe-lo aqui em nossa casa.

– Oi senhor Noel, como tem passado? – responde Carlos totalmente formal e inseguro.

– Graças a Deus e a Jesus estou bem. Um pouco cansado para os meus 98 anos, mas isso é a vida, você não acha?

– Não parece ter 98 anos de vida. Claro, não vou mentir. Sei que está velho e que aparenta muita idade, mas não chegaria a dar 98.

– Tem razão. Eu menti. Não tenho 98.

– Não falei? Eu sabia…

– Tenho na realidade 102.

Carlos sorriu um pouco amarelado crendo estar sendo enganado. O velhinho além de tudo era um gozador.

– E antes que você me pergunte – foi falando o velho Noel, 102 bem vividos. Quando assumi aqui tinha mais ou menos a sua idade. Talvez um pouco menos. Você tem quanto agora? Cinqüenta?

– É. Isso mesmo.

– Eu tinha 48 quando assumi. Queria completar mais um ano a serviço, mas vai ser difícil. A natureza é implacável. Estou muito doente e foi por isso que procurei contatar você.

– Não entendi.

– Bom Carlos. O negócio é o seguinte. Estou no comando aqui há exatamente 54 anos. E sem direito à aposentadoria.

– Não entendi Noel…

– Carlos! Eu sou o… Como lhe explicar?! Eu sou o Papai… Noel… Acredita?!

Carlos teve um pequeno começo de riso esboçado em seu rosto. Apesar de estar acreditando no velho faz menção de dizer o contrário. Mas o velho não o deixa terminar e dá continuidade a seu raciocínio:

– Claro que você acredita em mim, não é verdade? Quem não acredita em Papai Noel deixa de ser criança e quem deixa de ser criança perde a pureza da Paz para sempre. Papai Noel existe e nós dois sabemos disso não é verdade?

– Sim. Eu acredito em Papai Noel. Quero dizer… acredito em você… isto é, se você for realmente Papai Noel, aí sim, eu acreditaria em você.

– E caso eu não seja…? – pergunta Noel, o velho.

– Bom! Eu acho que você é bem possível de ser quem está dizendo ser… ou não, mas se não fosse porque insistiria em me dizer que é uma pessoa que não é?

O velho Noel ri até não se poder mais.

– Credo Carlos. Quanta confusão. Mas deixe-me explicar tudo para você. É justo que você saiba (como dizia meu avô) em que pau amarrou a sua égua.

A história é a seguinte. Desde muito tempo que nós (Papais Noéis) somos escolhidos (assim como eu fui, assim como você foi) para sermos a felicidade das crianças do mundo. Em outras palavras meu amigo Carlos, o escolhido para exercer essa função deve ser uma pessoa só. Óbvio, não seria justo tirarmos um pai de família ou seu arrimo única e exclusivamente por esse motivo. Então a primeira prioridade é com certeza escolhermos uma pessoa sem família para que possa ser o Papai Noel por muitos anos. Eu era um homem só. Viva reclamando de minha vida, que eu era só, um coitado, que Deus não se lembrara mais de mim. Que “ninguém me amava, ninguém me queria” que eu estava só e abandonado nesse mundão. Pois é! Eu reclamava tanto que um dia me fizeram uma visita e me trouxeram para cá. Meu amigo Carlos, nunca mais eu reclamei da vida. A função é gratificante. Só de imaginar que as crianças estão esperando pelos presentes e apenas vendo seus rostinhos peraltas e ansiosos ao abrir os pacotes você tem a sensação de que todos os seus erros foram perdoados. Carlos, as crianças são o símbolo da Paz. São os prediletos de Jesus, nosso líder espiritual. É delas que virá o futuro desse mundo em que vivemos hoje,

(Carlos escutava e concordava, meneando a cabeça, vez ou outra) cheio de guerras, de violência de fome. E aí o que acontece Carlos? Eu fiquei velho e não vi o tempo passar. Hoje tenho aquela idade que eu lhe disse que tinha, verdade e, portanto chegou a minha vez de ser substituído. Esse é o último Natal que eu consigo fazer algo pelas crianças. Não estarei com certeza, firme fisicamente no ano que vem. Eu sei e eu sinto a realidade das coisas. Então
Carlos, estivemos observando todos os homens sós nesse mundo e estamos seguindo você de perto, de tal forma que conseguimos durante anos absorver toda a sua vida.

Sabemos de todos os seus passos! Seus gostos. Suas preferências musicais. Seus modelos de carro prediletos. Seu tipo de mulher. Seu café da manhã, enfim, meu amigo. Sabemos tudo mesmo sobre você. E creia-me, você é o “cara”.

Carlos estava abismado. Sentia-se invadido em sua privacidade. Onde já se viu  – pessoas estranhas estiveram observando-o durante anos. Isso é totalmente ilegal. Isso dá um processo daqueles. Quem esses caras pensam que são?

Noel, o velho sorri das feições que o visitante faz. Em determinado momento Noel exclama:

-Ora! Vamos Carlos! Não seja tão rigoroso assim nem com você, nem com a gente. Nada disso que você possa estar pensando é tão grave como ficar sem Papai Noel o ano que vem…!

Carlos tenta reagir, mas sua consciência bem sabe que o velho está coberto de razão.

Sua cabeça começa a doer assim bem de repente. O que fazer? Aquela história toda é uma loucura. É isso. Por certo ele está ficando louco e como está só na vida aquela é uma das maiores alucinações que ele já teve conhecimento. Eu já ouvi falar disso. A pessoa fica tão traumatizada com a perda dos entes queridos que enlouquece. Sério. Entra no maior parafuso da história.

 

Mas Carlos sabia que alguma coisa dentro dele estava lhe dizendo que tudo aquilo era a mais verdadeira verdade que ele um dia já teve conhecimento.

E era exatamente aquela coisa dentro dele que lhe forçou a dizer assim de repente:

– Está bom! Está bem Noel! O que tenho de fazer? Pelo que entendi temos pressa ou não?!

Noel, o velho sorriu e levantou-se com muitas dificuldades para abraçá-lo.

 

E quando deu por si, Carlos já estava trabalhando. Em uma ala ajudava a lavar os brinquedos velhos e obsoletos que as pessoas jogavam. Esses brinquedos seriam reaproveitados após seus consertos.

Suava à bicas quando terminou o trabalho naquela noite. Noite? Que noite! Coloca noite nisso. Por certo eram mais de cinco da manhã. Seu corpo estava moído. Acredita que nunca em sua vida havia trabalhado tanto. E o tanque em que ele ficou lavando os brinquedos era do tamanho de um anão. E ele, bom, com certeza ele no alto de seus 1,75 metros não era um anão.

Acompanhou um empregado (anão) até seus aposentos e tomou um banho delicioso. Após dirigiu-se ao quarto e dormiu o sono dos justos.

 

No dia seguinte um café da manhã e um gostoso bate-papo com Noel. Mal terminaram de falar e novamente Carlos colocou “a mão na massa”, dessa vez para aprender a consertar os brinquedos que já haviam sido lavados.

– Nossa! Inacreditável. Carrinhos, caminhõezinhos, bonequinhas, bolas de capotão, soldadinhos, espadas, uniformes de super-heróis. Uma infinidade imensa de joguinhos, quebra-cabeças, tudo, tudo recuperado, parecendo novos em folha.

Que trabalho bem feito admirou-se Carlos.

Nem parece que esses brinquedos estavam quebrados e no estado em que se encontravam.

Eu nem fazia idéias que esses brinquedos eram assim recuperados.

A outra tarefa que ele aprendeu nos dias seguintes foi dar um novo acabamento aos brinquedos lavados e recuperados.

E assim foi. Nos outros dias, novas tarefas (pequenas tarefas) que o alegraram e quando finalmente chegou o Natal Carlos era um outro homem. Cansado, mas outro homem. Feliz como não se lembrara de ter sido outrora.

Noel o encorajava e finalmente chegara a hora tão esperada. A de distribuir os presentes.

Como iria isso ser feito?

A curiosidade massacrava Carlos. Noel, ao perceber essa curiosidade no rapaz intervém:

 

– Carlos! Não existe essa história de trenó e renas… Isso é folclore. Aqui nós usamos a força do pensamento. Em outras palavras. Aqui nós usamos vibrações boas e os presentes chegam onde queremos.

– Sei…

– Vou lhe mostrar como é. Está vendo essa lista? É de todas as crianças que residem em Osasco. O trabalho é ler o endereço e mentalizar a Paz no mundo, por exemplo, coisas boas, Deus. As palavras de Jesus. Mentalize Jesus. Imagine as crianças todas em volta de Jesus e Ele distribuindo esses brinquedos.

Imagine Carlos. Imagine coisas boas. E os brinquedos vão chegar lá, com certeza.

 

E foi assim. A noite de Natal foi trabalhosa e Carlos aprendeu rápido como distribuir os presentes. Ao terminar estava exausto.

Tomou banho e foi cear com todos de lá.

Ao chegar, Noel recebeu-o com um presente embrulhado em papel vermelho e preto.

Ao abrir Carlos não acreditou. Era uma roupa de Papai Noel.

– Pois é Carlos. É a forma que eu encontrei de dizer que essa tarefa é sua agora, a partir do ano que vem. Espero que tenha vida longa e que faça bom uso dessa tarefa e dessa missão que você terá a partir de agora.

Carlos sorriu e agradeceu.

– Só para saber Noel. Isso é definitivo?

– Sim Até que você encontre (ao final de sua vida) um substituto.

– Pois bem Noel e amigos. Então eu sou o chefe a partir de quando?

– De hoje Carlos. Quando eu sair daqui vou embora e deixo vocês para sempre. Afinal eu preciso me aposentar não acha?

Carlos quedou-se em silêncio por alguns minutos e em seguida se pronunciou:

 

– Diante dessas circunstâncias. Feliz Natal a todos. E vamos dormir.

 

 

 

É o fim.

 

 

 

Irapuã Gonçalves Teixeira (Esse Conto faz parte do Livro Retratos de Uma Vida – o qual estou escrevendo).